Papo sério

Brasileiros difíceis de agradar

May 2, 2014

Uma das coisas mais frustrantes de receber brasileiros em casa é o fato de eles não gostarem de nenhuma comida que não seja brasileira. Não experimentam, torcem a cara pra tudo que você oferece, reclamam abertamente da comida daqui e se você os leva para um restaurante, reclamam que não tem arroz no cardápio. WTF!

Eu acho a comida brasileira a melhor do mundo e pra ser honesta acho a comida americana uma das mais sem graça. Eu ainda estranho esse povo aqui colocar pimenta do reino em tudo. Eu detesto e sempre vou detestar fast food. Não gosto de waffles ou cup cakes, mas adoro ovo no café da manhã e french toast com maple syrup. Tem tantas outras coisas deliciosas que só fui experimentar aqui!

A diferença é justamente esta, eu experimento as coisas. Não vou gostar de tudo, mas vou experimentar. Eu não cheguei aqui exigindo comida brasileira. Sim, eu ia de vez em quando a uma lojinha de produtos brasileiros que tinha aqui na cidade para comprar guloseimas do Brasil, mas eu não comia SÓ isso. Eu não acordava de manhã e reclamava de não ter pão francês para comer. Fui fazendo substituições e encontrando as comidas que me agradavam mais aqui. Ia ao supermercado e comprava coisinhas diferentes para testar em casa.

Como você quer viajar para um lugar, conhecer a cultura desse lugar e só querer comer a comida do seu país? Você deixa o anfitrião maluco tentando achar suco de maracujá Maguari, Toddy, arroz e feijão com caldo Knorr e chocolate Nestle só porque você não aceita variar sua alimentação um pouco durante uma viagem! Você serve uma lasanha e perguntam: cadê o arroz? Não tem feijão? Ah, não como sem feijão. Ih, não gosto de alface crespa. Puta que pariu!

A piora experiência gastronômica que eu tive na vida foi em New Orleans. Achava tudo nojento. Arrepio só de pensar naquelas comidas (pra mim) estranhas. Mas mesmo lá eu me virei, fui a restaurantes diferentes, experimentei os pratos locais e não morri de fome porque não fiquei exigindo essa ou aquela comida específica. Já cheguei lá sabendo como seria e fui me adaptando. Claro que você não é obrigado a experimentar e gostar de tudo. Mas não experimentar nada? Não gosta nunca de nada? Como pode?

Aos 22 anos mudei para o interior do ES por causa de um trabalho. No primeiro mês morei com a tia de um amigo que gentilmente me hospedou de graça até eu encontrar um apartamento para alugar. Na minha primeira noite lá ela fez um jantar especial para mim. O problema é que eu não gostava de nenhuma das comidas que ela serviu. Tinha, por exemplo, lasanha de frango, e eu não como frango, mas em momento nenhum fiz cara feia nem reclamei de nada. Escolhi os dois pratos de que desgostava menos e comi. Pouco, mas comi. Dias depois contei para minha anfitriã que eu não comia frango e ela deu risada. Agora, imagina se eu tivesse agido como uma cretina logo na minha primeira noite na casa de uma senhora tão bacana?

Acho super natural a gente levar em consideração a idade, o estado de saúde e as restrições alimentares dos nossos hóspedes. Acho até importante fazer agrados e tentar ter em casas coisinhas que a gente sabe que a visita gosta de comer. Sempre que convidamos alguém para jantar perguntamos se a pessoa tem alguma alergia, se tem algum ingrediente de que não gosta. Acho gentil e educado.

Fiz isso com um amigo sérvio que me visitou em São Paulo. Tive inclusive o cuidado de pesquisar a “gastronomia sérvia” e tentar reproduzir em casa alguns pratos que achei mais fáceis de fazer para agradá-lo. Mas, porra, ele não ficava exigindo SÓ comida sérvia para comer. Não torcia a cara para comidas não sérvias. Experimentou comidas diferentes. Gostou de umas, não gostou de outras, mas não me fez sentir como se eu tivesse a obrigação de servir a comida do país dele para ele.

Agora, imagina hospedar por 3 semanas ou meses alguém que não come nada, que não gosta de nada, que detesta tudo que experimenta (quando experimenta) e que fica reclamando o tempo todo do quanto sente falta da comida brasileira? A pessoa fica sempre de bico pelos cantos e você não sabe mais o que fazer para agradá-la. Vem fazer o que aqui então? Isso me irrita demais.

Não torne a vida do seu anfitrião um inferno. Não seja um chato que ninguém vai mais querer receber em casa. Seja mais razoável. Seja mais flexível. Experimente mais. Ou traga marmita para todos os dias em que ficar hospedado na casa de alguém. 🙂

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  • Fernando May 2, 2014 at 5:19 PM

    Eli acho que sou uma das pessoas mais fáceis de “alimentar” talvez por ser morto de fome hahaha, separo em cinco dedos o que detesto, e não como mesmo, tem coisas que gosto muito mais que outras, como qualquer humano normal, eu provo de tudo e no mínimo duas vezes, pra fugir da possibilidade de a comida ter sido mal preparada. Já me ferrei com isso, mas não mudo.
    Esse tipo de pessoa nem de casa deveria sair, se não vai experimentar coisas novas, aprender algo novo, que fique na sua redoma de vidro com tudo que gosta dentro. Além de atrapalhar um pouco a rotina de quem hospeda, ficar de bico o tempo todo e reclamando de tudo é dose pra leão, eu dispenso essas visitas. Que vá pra um hotel então.
    Li a muito tempo essa frase, hospede bom é aquele que quando te visita você não sente a presença dele e ao ir embora vc sentirá falta.

  • Camila May 2, 2014 at 10:05 PM

    Apoiado!! Eu nunca tive problema com a comida em lugar nenhum do mundo. Se gosto, beleza. Se é um ingrediente de que gosto mas preparado de uma forma diferente, opa, vamos lá ver como é isso. Se não tem nada que agrade, também opto pelo que desagrada menos. Não morri de sentir falta de nada aqui. Tento reproduzir o que consigo na cozinha, mas acima de tudo, acho ótimo experimentar pratos novos e típicos na minha cozinha. Tem que ser flexível. Acho falta de noção essas pessoas que chegam para morar aqui e dizem sofrer horrores com a comida daqui. Fico imaginando o que elas comem no Brasil para serem tão enjoadas numa terra em que se encontra de tudo. Eé ou não é verdade que aqui nos EU a gente encontra de tudo? É só se mexer e procurar, aprender, cozinhar… Tão simples e tão bom, principalmente com a infinidade de ingredientes que encontramos nas lojas bem legais. Tudo bem, compro um suco de maracujá de vez em quando, mas “nunca morri” de abstinência!!! Beijo!! E apoiada de novo no seu post!!

  • Sandra May 3, 2014 at 7:05 AM

    Eu sou chata pra comer e me envergonho disso… mas sou chata com a comida que EU preparo e que escolho para comer na rua! Jamais na casa dos outros vou ser a chata que reclama que não tem isso ou aquilo, não come nada e nem prova uma culinária diferente. Quando eu vejo certas pessoas que moram aqui ha anos e querem só comer o arroz, o feijão, a farofa e a picanha (que eu inclusive adoro),eu me pergunto: qual a vantagem de cruzar um oceano pra viver do mesmo jeito que se vivia no Brasil? Não entendo. A culinária suíça tb não é a melhor do planeta, mais aqui encontramos de tudo, e acho difícil não se conseguir se virar com os produtos que temos aqui. Só é preciso um pouco de esforço. Bjs

  • georgia Aegerter May 3, 2014 at 7:31 AM

    Eliane, desse assunto entendo bem. Por aqui tem um monte de brasileiras com este curto pensamento. Meus pais vieram em 1999 por 8 semanas quando o Daniel nasceu. Foi um inferno essas 8 semanas em relacao a comida, pois eles só queriam comer comida brasileira, feijao e arroz. Difícil porque naquela época era super difícil de encontrar essas coisas e qdo era caro pra caramba. Me lembro que servi uma sobremesa de sorvete com uma calda de frutas quentes e eles jogaram fora porque sorvete nao se come assim. Um verdadeiro terror.
    Eu adorei aprender a comer diferente do meu. E aprendi uma gastronomia que um curso no Brasil nao me daria. Hoje sei preparar pratos italianos, frances, alemao, turcos, hungaros, da servia, holandeses e suicos. Imagina o rol cultural que aprendi vivendo aqui. Dou gracas a Deus por eu ter uma mente aberta e gostar de experimentar coisas diferentes.
    Achei muito legal a tua atitude em relacao a senhora onde vc ficou. Isso se chama respeito.

    Cada vez mais te admirando.

    Bjos

  • Rejane May 5, 2014 at 6:36 PM

    Você está certíssima! É uma questão de educação e de bom senso. Perde o sentido viajar se você não quiser ver, sentir (frio, por exemplo), provar e explorar… Sou fã do seu blog. Você escreve muito bem e também acaba sendo muito divertida porque é curta e direta! Bj

  • Bah May 9, 2014 at 10:49 AM

    Pra mim, comer a comida local é a própria experiência que vc leva do lugar. Eu experimentei comidas no Peru que eu normalmente não gosto, comi muito fish n chips na Inglaterra, muito sushi e sashimi e outras variedadades que eu não conhecia no Japão e por aí vai. Faz parte da experiência e cabeça pequena de quem quer comer só comida que está acostumado.

    Kisu!

  • Ana carolina May 18, 2014 at 6:30 PM

    Eli, adorei seu post e assino embaixo! Há três anos viajei pra orlando com a família do meu então noivo e passei muita raiva com a atitude deles em relação à comida. Todo dia na hora das refeições era um sofrimento porque durante 15 minutos tinha que escutar as mesmas reclamações.
    Penso que quando saímos de casa temos que estar preparados pra fazer sacrifícios. Até porque a graça de viajar é justamente estar num lugar diferente e ter experiências diferentes.