Family Oliver Papo sério

Reflexões de mãe

August 25, 2014

Às vezes, quando me bate aquele cansaço da vida, eu lembro com orgulho que tive meus filhos na unha, sem mãe, sem sogra, sem amiga, sem ninguém por perto para me ajudar ou segurar minha mão. Fomos só eu e meu marido, sem fazer curso de gestante, tendo lido apenas uns livros bestas que, hoje vemos, não serviram pra nada, dando nossas cabeçadas naqueles primeiros meses de muito amor e de muitas descobertas. Tivemos sorte de ter tido dois recém-nascido fáceis, que nunca tiveram cólica e que nos deixavam dormir.

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Lembro que durante a gestação do meu filho mais velho eu fiquei perdida sem saber o que comprar, por onde começar. Não conhecia o nome dos produtos ou das coisas, nem em português nem em inglês, não sabia o que era realmente necessário ter e o que era só firula. Lembro as muitas horas gastas navegando na internet e tentando entender como uma bulb syringe funcionava, como dobrar um stroller, o que carregar na bolsa de fraldas, o que fazer se o bebê engasgasse, vomitasse, por que precisava colocar pra arrotar.

Lembro a gente treinando como se troca fraldas numa boneca monstruosa e gigantesca que pertenceu a minha sogra e meu marido guardou de recordação depois da morte dela. A fralda de recém-nascido não coube na boneca-monstro, e também não coube no bebê gigante que nasceu meses depois.

Lembro a minha ansiedade para sentir o bebê mexer e o medo de não saber qual era a hora certa de ligar para a midwife vir fazer meu parto, o que acontecia quando a bolsa estourava – e se estourasse no carro, no restaurante, na rua?

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As semanas que antecederam e sucederam meus partos foram, assim, solitárias, só nós. Sem família. Era doloroso ter de responder all the freaking time “por que sua mãe não vem ficar com você”. E depois “por que sua mãe não veio ficar com você”. Não veio. Pronto. Para de perguntar isso. Estocamos produtos de limpeza e congelamos algumas refeições para as primeiras semanas. Criamos uma rotina onde, no final, tudo se encaixou, e nem foi tão difícil porque, felizmente, eu tive meu filhos de parto normal e consegui logo fazer minhas coisas, sem desconforto nem problemas.

Acho que vou contar essa história toda cada vez que alguém me perguntar como tive “coragem” de ter filhos de parto normal/natural E SOZINHA. Eu não estava sozinha. Meu marido estava comigo e, ao fim e ao cabo, era ele quem realmente importava estar ali mesmo.

Lembro eu na banheira, urrando de dor pelas contrações, ele vinha me beijar ou acariciar, as midwives falando palavras de incentivo pra mim “You can do this” e eu mandando todo mundo calar a merda da boca, se afastar e me deixar em paz. hahahahaha. Totalmente eu ter uma reação dessas. rs.

Eu sou louca, piradona mesmo, implicante, mas também sou forte pra cacete. Às vezes até eu me surpreendo com minha força. Não é qualquer coisa que me derruba ou amedronta. Parece até um paradoxo já que sou louca diagnosticada. rs. É que quando você não tem nada no que se ancorar, você se ancora em si mesma. Sem se fazer de vítima ou ter vergonha. E enfrenta. E segue em frente.

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Não se preocupem, não estou deprimida. Só estou extremamente emotiva porque em uma semana o Oliver vai para a escolinha e esse processo todo tem trazido lembranças aconchegantes e algum desconforto quanto ao que esperar dessa nova fase da vidinha dele. Eu fico vendo fotos dele bebê, fico pensando nesses quase 3 anos com ele grudado comigo dia e noite, nas manhãs pela frente sem ele em casa, e sinto esse misto de felicidade e tristeza ao mesmo tempo. Quero que ele vá, porque ele está pronto e será bom para ele, mas ao mesmo tempo não quero deixá-lo ir, conseguem entender esse conflito?

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  • Sandra August 26, 2014 at 4:31 AM

    Ai Eli, fiquei tocada com este post, apesar de não ter filho. Lembro de uma amiga que teve filho aqui e quase pirou com estes questionamentos todos de “porque sua mãe não vem”, “mas você vai ter filho sozinha aqui”? Cara, ela não estava sozinha, tinha o marido com ela. Eu me incomodava por ela, acredita? Por ter que lidar com tanta perguntação de gente sem noção, aff…. Eu acho lindo quem pode ter a mãe por perto, mas as vezes acho tudo de um exagero sem tamanho. Vejo mulheres aqui (normalmente sulamericanas) que se pudessem trariam a família toda para ajudar no pós parto! hahahaha
    Vai dar tudo certo com o Oliver na escolinha Eli:-). Tem uma hora que a mãe precisa mesmo soltar a mão do filho e deixá-lo ir. Dói, mas é assim mesmo. Beijão.

    • Feisty Eli September 3, 2014 at 6:59 AM

      Acho que ter um suporte da família, principalmente quando temos nosso primeiro filho, é válido, para mim pelo menos teria feito diferença emocionalmente. Mas não pude contar com essa ajuda, entao também não fiquei chorando as pitangas. Escuto muito isso de outras brasileiras aqui também e concordo que há um exagero. Nos somos mais capazes do que imaginamos e numa hora dessas, quando se envolve um filho, a gente ve que a única saída é se fortalecer e enfrentar, não da nem tempo de ficar fazendo drama. Ele foi pra escolinha hoje e amou, Sandra. Beijo

  • Luciana - Canada August 26, 2014 at 9:12 AM

    Eli, esse post foi sobre mim? rsrsrs
    Acompanho teu blog desde o inicio e tambem tivemos minha filha sem ajuda de ninguem.
    Meu choque foi que neste fim de semana coloquei uma vela de 3 anos no bolo dela. 3 anos?!?! Passa rapido, ne?
    Um beijo pra familia linda que vcs construiram.
    🙂

    • Feisty Eli September 3, 2014 at 6:57 AM

      Não é assustador como eles crescem rápido? Onde nossos bebês gordinhos foram parar? Ao mesmo tempo, não é uma delícia vê-los aprendendo coisas novas, falando? O negócio é saber aproveitar cada fase deles porque passam rápido demais, você sabe. Obrigada pelo carinho e parabéns para sua filhota. Onde vocês moram aí no Canada? Beijo

      • Luciana - Canada September 3, 2014 at 12:50 PM

        Moro em Montreal. Vcs vieram por aqui (diga-se de passagem, na epoca mais fria do ano! OMG!) com os pequenos.
        🙂
        Acabei de ler o post do primeiro dia na escola. Parabens ao big boy!
        Beijao!!

        • Feisty Eli September 3, 2014 at 4:33 PM

          Ah, a gente mora em Michigan, está acostumado com frio intenso e neve. rs. Foi uma loucura mas eu queria porque queria ir a Quebec no inverno. Agora preciso voltar aí no verão. 🙂

  • Cleide - Orlando EUA August 26, 2014 at 1:23 PM

    Oi Eli, venho lendo seu blog por um tempo, mas hoje seu post me fez lembrar que também cuidei sozinha da minha filhota e como não tinha ninguém por perto foi pra escolinha cedo. Eu estava no meio da universidade na época…Estava no Brasil, mas vivia em cidade diferente da minha família, não tive ajuda…
    Mudamos para os EUA em dezembro2013, e confesso que meu coração ficou muito apertado quando deixei ela aqui na escola, ela tem 12 anos mas a sensação não foi diferente de quando deixei ela na escola a primeira vez. Parabéns pela família linda!

    • Feisty Eli September 3, 2014 at 6:50 AM

      Eu te entendo, Cleide. Porque mesmo sua filha tendo 12 anos, a transição para uma nova escola, em um país diferente, tem de ser equivalente a mandar um filho para a escola pela primeira vez. É muito difícil ter de passar por certos eventos da vida sozinha, mas, ei, também não é o fim do mundo e a gente é prova de que pode dar certo. Acho também que aprendi muito, e isso que importa. Espero que voces estejam gostando daí e sua filha esteja adaptada a escola e fazendo amiguinhos. Abraço

  • Eloise Menhard August 26, 2014 at 7:40 PM

    Oi Eli, sei que é clichê o que vou dizer, mas é real. Temos que ser fortes, quando esta é a única opcao, e nesse caso você teve que encontrar a sua fortaleza.
    Claro que é ótimo ter uma pessoa extra para ajudar no pós parto, e se for mae, dá ainda mais conforto, só que nem sempre as situacoes sao como desejamos, porém isto nao te impede de fazer o que tem que ser feito.
    Quanto ao Oliver, é duro perceber que eles crescem e se tornam independentes, que já nao é mais aquele serzinho frágil e delicado que vc aninhava nos bracos e que aquilo bastava, nao, hoje eles querem e tem que se abrir para novos horizontes.
    Nao esquente, normalmente imaginamos a coisa mais difícil que ela realmente é.
    Bjs

    • Feisty Eli September 3, 2014 at 6:48 AM

      Exatamente, Eloise, foi bem menos difícil do que eu imaginei que seria. O primeiro dia de aula dele foi ontem e ele aparentemente adorou. Beijo

  • Célia Dória August 27, 2014 at 11:31 AM

    Lindo seu post, Eliane! Relato de mãe, porque somos mães e é assim que sentimos e enfrentamos nossa vida de mãe! Parabéns você fez um bom trabalho!