Papo sério

O Loro morreu

April 19, 2015

IMG_7326Eu ando sumida do blog, né? Desculpem os ninjas que tenho dado, mas tem faltado tempo para atualizar aqui. E quando tenho uma folga estou tão cansada que a última coisa na minha lista de prioridades é o blog. Já até pensei em trancar o blog ou mesmo deletar, mas quer saber? Mesmo sem tempo eu gosto de saber que vez ou outra posso vir aqui e compartilhar com os poucos gatos pingados que hoje me seguem o que anda acontecendo na minha vida. Então continuo, aos trancos e barrancos.

Neste momento, o evento mais importante e recente que tenho para compartilhar com vocês é a morte do nosso papagaio. Não sei nem por onde começar a falar dele porque estou tão triste que só de digitar este post eu quero chorar. E já chorei muito nos últimos dias.

O nome dele era Loro. Só isso. Loro. Sem nome próprio nem sobrenome. Chegou em casa voando, nos anos 80, quando eu ainda era criança. Grande, colorido, selvagem e temperamental. Se nasceu temperamental assim ou se herdou essa característica da minha família, que é super temperamental, não dá para saber, mas ele era conhecido pela braveza.

Invocado, era temido por nós, crianças, as quais ele atacava sempre que tinha oportunidade. Ele subia no telhado de casa e por lá ficava escondido até eu ou um dos meus irmãos passarmos embaixo. Aí ele dava um voo rasante e pousava na nossa cabeça. Só parava de nos bicar quando minha mãe ia acodir. Era um papagaio danado.

Odiava pano de chão, vassoura, balde e barulho de panelas. Se você passasse com uma panela perto dele era capaz de ele voar em você. Ele se irritava com o barulho de crianças brincando na rua e era notório que ele só gostava de adultos. Com ressalvas. Preferia mulheres a homens, mas nunca gostou nem de mim nem de minhas irmãs. Sempre foi indiferente a meu irmão. Go figure.

Morria de medo de pipa, urubus e gatos. Mesmo o pio dos passarinhos o aterrorizava porque ele achava que era gavião. Ficava assustadíssimo. Só não tinha medo de gente, a quem ele enfrentava sempre destemidamente. A única pessoa de quem ele gostava irrestritamente era minha mãe. Era um amor de devoção completa, ao ponto de ela não poder viajar por mais de duas semanas sob o risco de ele parar de comer.

Quando minha mãe não estava em casa, eu geralmente era responsável por alimentá-lo, mas como ele tinha bronca de mim porque eu puxava o rabo dele, era eu colocar o prato de comida na frente dele que ele virava tudo de cabeça para baixo. Não falei que ele era danado? Ainda assim, eu era louca por ele.

Era o xodó da minha mãe, que sempre o tratou como membro da família. Engraçado porque minha mãe, assim como eu, nunca gostou de bichos. Mas o Loro era especial. E ele sabia disso porque era mimado, egocêntrico e super exigente. Comida, por exemplo, só comia se fosse quentinha. Adorava farofa de ovo, semente de girassol e arroz pelando de quente.

Era ouvir o barulho das panelas que ele saía andando atrás da minha mãe pedindo comida. E cantava e conversava e pedia até ela colocar a comida dele. Pipoca comia todo dia. Não pipoca de microondas, pipoca de panela mesmo, que minha mãe fazia com todo o amor para ele, diariamente. Ela agora não quer mais fazer pipoca em casa porque a faz se lembrar dele.

A gaiola tinha de estar sempre limpa. Se ficasse suja ele se recusava a descer para comer e beber água, acho que para não sujar os pezinhos. rs. Aí ele se pendurava na grade da gaiola e se esticava todo, de cabeça para baixo, para comer e beber. Assim que alguém limpava a gaiola ele descia. Olha que fresco. Adorava banho de mangueira. Quando fazia calor, minha mãe jogava água nele e ele ficava tão feliz que cantava, extasiado, com as asas abertas. Lindo de ver.

Eu o vi pela última vez 2 anos atrás, quando fomos ao Brasil. Os meninos eram bebês e não se lembram dele. Eu falo com minha mãe pelo telefone diariamente e todos os dias perguntava por ele, como ele estava. Muitas vezes nossas conversas eram interrompidas pelos gritos dele, que tinha ciúme da minha mãe e queria atenção constante. Ela conversava com ele como se ele fosse uma criança de 3 anos de idade. Dava bronca, mandava ele se comportar. Ele geralmente obedecia. Mas sabia que era adorado e volta e meia se comportava como um reizinho.

Quinta-feira minha mãe me contou que ele estava triste e não queria comer. Não achei que fosse nada sério porque ele já tinha ficado assim outras vezes e sempre voltava ao normal. Desta vez, porém, minha mãe parecia realmente preocupada e eu pedi que o levassem a um veterinário, que prescreveu um remédio para ele. À tarde meu pai contou que ele tinha saído da gaiola e estava passeando pela casa atrás da minha mãe. Tive certeza de que ele ia se recuperar totalmente.

Acordei sexta-feira de madrugada pensando nele. Quando liguei para minha mãe a primeira coisa que fiz foi perguntar como ele estava. Não estava, ele tinha morrido naquela noite. Eu não sei explicar o que senti naquela hora porque eu acho estranho ter tanto sentimento por um animal. Sei que muitas pessoas amam seus bichos e isso é natural, mas para mim é estranho.

No entanto, eu amava o Loro. Eu sei que ele era muito velho e uma hora ia morrer, mas ele ficou na nossa família por 30 anos. 30 anos. 30 anos!!! Como não sentir essa perda? Eu fico lembrando todas as milestones da nossa família que o Loro acompanhou nos trinta anos que ele fez parte da nossa família. Nosso crescimento; nossas mudanças de casa, bairro, cidade; nossos casamentos; o nascimento dos meus sobrinhos, dos meus filhos; a morte de parentes e amigos; as reformas das casas; minhas viagens ao Brasil; e tantas outras transformações que só alguém que viveu 30 anos com as mesmas pessoas pode presenciar.

Então ele nunca será como um bicho qualquer. Ele existiu, importou e contou na nossa vida. Como não ficar triste quando seu bicho de estimação morre depois de 30 anos com você? Estamos todos de luto. Minha mãe está arrasada. Acho que a hora das refeições é o momento mais difícil do dia para ela porque ele estava sempre atrás dela na cozinha pedindo comida.

Estou triste porque ele se foi. Estou triste porque não pude me despedir. Estou triste porque meus filhos não se lembrarão dele. Estou triste pela minha mãe, que de todos nós é a que vai sentir mais falta dele. Ele era o companheirinho dela. Dava trabalho mas ela o amava e gostava de cuidar dele. Novamente, ele viveu uma vida de rei na casa dos meus pais e não tem ninguém na nossa família que não irá sentir falta dele.

Eu me sinto meio ridícula falando que vou sentir falta de um bicho, mas é isso aí, eu vou sentir muita falta do nosso Loro.

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  • Lúcia Soares April 20, 2015 at 12:17 PM

    Sinto muito! Sei bem como é perder algum animal com o qual convivemos por tantos anos!
    Ele será sempre uma boa lembrança, Eliane.
    Beijo.

    • Feisty Eli April 20, 2015 at 5:06 PM

      Com certeza será. Obrigada, Lúcia.

  • Mari April 21, 2015 at 1:32 PM

    Eu tenho medo de animais então eu não tenho nenhum. Porém, eu sei que pessoas sentem bastante quando perdem um bichinho assim. Realmente só o tempo para confortar.

    Com relação a deletar o blog. Por favor, não faça! escreva quando tiver tempo e vontade! acho que você escreve tão bem e eu gosto tanto desse blog. No fim tudo dá certo!

    • Feisty Eli April 22, 2015 at 10:39 AM

      Eu tenho medo e nojo. As pessoas ficam bravas quando falo isso, mas não vejo motivos para esconder. O Loro, porém, estava na família desde que eu era criança, a gente se apegou muito e tem sido difícil sem ele, minha mãe chora muito e todo dia. Não me vejo tendo bichos de estimação também não. E obrigada por acompanhar meu blog há tanto tempo já. Eu dou uns sumiços daqui mas sempre volto. 😉

  • mieline April 26, 2015 at 6:31 PM

    Chorando…. Só quem tem bicho sabe.

    • Feisty Eli April 26, 2015 at 9:09 PM

      Obrigada, Mieline.