Papo sério

Bater não educa, aterroriza

June 23, 2015

Não sei vocês, mas quando leio sites de notícias, americanos ou brasileiros, freqüentemente acontece de eu me irritar ou me divertir mais com os comentários dos leitores do que com a notícia em si. A clandestinidade permite às pessoas exporem suas opiniões, seus preconceitos, julgamentos, intolerância e ignorância.

Ultimamente, comecei a reparar em um padrão interessante. Se a matéria é sobre crime, chovem comentários sugerindo que a pessoa virou bandida porque não apanhou quando era criança. Uma associação (pra mim) absurda entre a índole de um indivíduo adulto com o uso ou não de punição física na infância. Quando diversos estudos mostram que acontece justamente o contrário: crianças que são agredidas pelos pais têm mais chances de se tornarem adultas violentas do que aquelas que nunca apanharam.

Acho que a Lei da Palmada (que eu aplaudo) fez muita gente acreditar que o governo quer se intrometer na maneira como cada família cria seus filhos. Tem razão, quando se trata do bem-estar de um menor de idade, tem de ficar de olho sim. Claro que pai e mãe são soberanos nas escolhas que fazem para seus filhos, na maneira como os educa e nos valores que transmite a eles. Mas há um limite para isso.

Uma mãe que queima a mão do filho de 9 anos na boca do fogão porque ouviu um boato de que ele furtou um celular não está ensinando seu filho que roubar é errado. Um pai que espanca o filho de 3 anos com um pedaço de pau porque ele fez cocô na roupa não vai fazer com que ele seja desfraldado mais rápido. Uma mãe que dá uma surra de cinto na filha porque ela foi desobediente não está ensinando a menina a ser mais obediente. Está aterrorizando. Está ensinando a eles que a violência é aceitável como forma de resolução de conflitos.

Se você bate no seu filho, como explicar para ele que é errado bater nos irmãos ou nos coleguinhas? Como você explica essa inconsistência se ele começar a usar os punhos para resolver conflitos na escola, nos relacionamentos pessoais? Por fim, ninguém bate para educar, porque tapa, varada, chinelada, cintada não educam, apenas ensinam seu filho a se tornar uma pessoa agressiva e raivosa. Como muitos pais por aí.

Muitas pessoas acreditam que a punição física é a única maneira eficaz de impor autoridade nos filhos. Será? Meses atrás, uma conhecida me contou que a filha de 3 anos estava impossível e que eles começaram a usar punição física (leve, de acordo com ela, só tapas e chineladas na bunda) para “educá-la” porque eles não estavam aguentando mais o mau comportamento da menina. Perguntei se o método estava funcionando e ela respondeu: “Na verdade, não”. Mesmo assim, eles continuam a usá-lo.

Como essa mulher, muitos pais batem nos filhos apesar de os tapas (ou agressões piores) não modificarem o comportamento deles. No entanto, eles continuam batendo. Provavelmente porque cresceram apanhando dos seus próprios pais e acreditando que bater é aceitável como método de educação e punição, que esse é um direito deles sobre os filhos e ninguém tem nada com isso, porque esse é, provavelmente, o único recurso que conhecem.

O que me faz crer que quando você bate, bate porque está frustrado, esgotado e chegou no seu limite, perdeu o controle da situação e tem dificuldade de usar seus recursos psicológicos e emocionais para administrar o conflito com a criança de maneira diferente. Como mãe de dois meninos extremamente ativos, de personalidades super fortes, I can relate. Juro. Crianças, inclusive as bem pequenas como as minhas (ou, talvez, principalmente essas) às vezes podem ser irritantes e get under our skin. I get it. 

No entanto, a punição física não é nunca sobre a criança ou o comportamento dela. É sobre você e suas emoções, seu cansaço, seu esgotamento às vezes físico, às vezes mental, muitas vezes os dois, sua estrutura psicológica e seus recursos emocionais para lidar com conflitos típicos da maternidade/paternidade. Então não se pode jamais chamar um tapa ou uma chinelada de um ato educativo. É vergonhosa qualquer sugestão desse tipo. 

Os pais precisam entender e acreditar que é possivel criar filhos educados, respeitosos da autoridade, sensíveis e tolerantes sem erguer a mão para eles. Há que se impor limites e regras, praticar a arte da negociação e compreensão, por que não? Você não conquista o respeito do seu filho quando bate nele, quando ameaça com a vara em cima da geladeira, com o cinto dobrado na mão. Assim você educa pelo medo e isso nao é educar, é aterrorizar. E eu não quero meus filhos aterrorizados. Quero filhos que me respeitem.

E se por um lado eu não acredito que um tapinha na bunda vai traumatizar a criança, por outro não acredito que o tapa na bunda vai torná-la uma criança mais obediente, respeitosa e, jamais, um ser humano melhor. Pelo contrário, dependendo da personalidade do seu filho, o tapa tem o poder de tornar seu comportamento ainda mais difícil de modificar.

Educar um filho não é fácil. Nós, pais e mães, sabemos bem. Na verdade, às vezes pode ser bem frustrante. Mas você precisa cuidar das suas emoções se quiser ser um pai ou mãe equilibrado, que educa os filhos com limites mas sem perder a generosidade, a tolerância e o amor. Ao bater na pessoa que você deveria proteger, cuidar e guiar, você demonstra total falta de controle não apenas das suas emoções, mas também do seu papel de educador daquela criança.

A escolha de não bater no seu filho não te torna um pai ou mãe permissivo. De forma nenhuma. Há muitos adultos de bem por aí, equilibrados, ajustados, felizes, que nunca levaram um tapa. Como há também seres humanos da pior espécie que apanharam horrores quando criança. Essa é, portanto, uma associação equivocada e perversa.

Perversa porque entende a punição física como um ato preventivo do mau caratismo, o que é o mesmo que assumir que toda criança é um mau caráter em potencial e que o tapa ou a ausência deste irá determinar seu futuro e papel na sociedade. Perversa porque a criança não tem nenhuma chance de redenção antes mesmo que tenha totalmente desenvolvida sua capacidade de entendimento.

Até hoje não li nem escutei nenhum argumento válido dos que defendem a punição física como método de educação (?!) dos filhos que não me pareça apenas ignorante, cruel e injusto. As pessoas ficam horrorizadas (com razão, claro, eu também fico) quando o dono bate no cachorro para ele se comportar, mas acham totalmente razoável quando a mesma punição é aplicada a uma criança!

E para esses que gostam de diferenciar o tapinha na bunda da paulada na cabeça, como se por existirem pais sádicos por aí isso tornasse o tapa que eles dão (sem culpa) nos próprios filhos mais aceitável, eu questiono: quantos pais começaram com o tapinha na mão e na bunda e com o tempo, o cansaço e a frustração acabaram permitindo que as agressões se tornassem mais severas e abusivas? Qual é o limite? Eu, particularmente, prefiro nunca colocar a mim mesma, muito menos meus filhos, nessa posição de incerteza e vulnerabilidade.

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  • Aline July 6, 2015 at 2:05 PM

    Eli, concordo plenamente contigo. O lema “Violência gera violência” pode parecer clichê, mas é a pura verdade. Como vamos cobrar de nossos filhos que não sejam violentos se formos assim com eles? Parabéns por ser essa mãe tão bacana! Beijos

    • Feisty Eli August 8, 2015 at 9:32 PM

      Inconsistência de quem acha que dá para separar esse tipo de coisa, né? Obrigada, querida. Beijo

  • Eloise August 11, 2015 at 4:56 PM

    Se os pais, que dizem amararem, batem e usam de violência, que é uma forma de ódio. Como vao ensinar aos filhos que agredir é errado e que odiar é feio? Afinal de contas os filhos sao espelhos dos pais, do melhor e principalmente do pior. Beijos

  • Mônica Zierer October 7, 2015 at 9:14 AM

    Texto maravilhoso, Lica!!!