Cotidiano Dominic Family Oliver Papo furado

Mundo toddleano

June 17, 2015

IMG_7442Quando eles acordam da soneca funciona assim: um está de péssimo humor e quer colo. O outro está de bom humor até que percebe que o de mau humor está no meu colo. Aí fica mal-humorado também. Eu sento com os dois no colo e consolo um, consolo outro, embora só um está genuinamente chateado. O outro está só tentando chamar minha atenção, mas eu finjo que não percebo porque preciso to play along.

O que está sentando na perna direita empurra o que está na perna esquerda. O da perna esquerda tenta abraçar o da perna direita, mas este está tão chateado que começa a gritar com o da perna esquerda, que se assusta e chora de novo. Vinte minutos dessa palhaçada, eu começo a ficar de saco cheio e mando o da perna esquerda ir brincar, mas imagina se ele vai me deixar todinha pro da perna direita?

Vocês têm noção de como é o mundo competitivo dos quase gêmeos? Perder para seu quase gêmeo não é uma opção. Você tem de vencer sempre. Assim, já esgotada, tento a mesma tática com o da perna direita, mas o da perna direita não só se recusa como manda o da perna esquerda sair fora. Da minha perna. E do quarto dele. Se pudesse, até da casa.

Levar as duas feras lá pra baixo é outro desafio quixotesco porque eles brigam pra ver quem vai no meu colo. Colo? Are you fucking kidding me? Eu não quero levar ninguém no colo, porque além dos 33 kg que eles somam juntos, tenho uma cesta cheia de toddler crap pra carregar, então, sem chance de eu fazer isso.

Só que eles não estão nem aí e ignoram completamente meu protesto. Porque no mundo toddleano, amigoooooos, só as necessidades deles contam e eu só existo para satisfazer essas necessidades, capite? Então, como assim eu ter a pachorra de negar colo aos dois? Quanto antes você mãe e pai de toddler entender isso, de menos terapia você precisará no futuro. Com sorte, só eles precisarão. 😉

Então tenho de escolher. Não é A Escolha de Sofia, mas chega perto. Depois de 0.2 segundos de deliberações internas, escolho o que está mais chateado (só para evitar mais encheção de saco) e deixo o menos chateado se ferrar e ir se arrastando até lá embaixo. Sim, porque o que vai no chão não vai complacente, não, tá? Vai na marra. Vai se sentindo preterido. Vai ofendido por não ter tido a honra de descer a escada no colo da mamãe. Mas eu não tô nem aí pros sentimentos ofendidos de ninguém. Eu só quero chegar lá embaixo o mais rápido possível. Deixo o pau comer.

Acontece que numa casa de toddlers, colegas, a vida nunca é simples. O que escolhi pra ir no colo decide no último minuto que também quer ir pro chão. Provavelmente porque, a essa altura do campeonato, ele está achando que special big kids vão no chão e que só os bebezinhos chorões descem a escada no colo da mamãe.

Ele olha indeciso para o que está no chão e sente que o irmão foi “O Escolhido”, concluindo, dentro de sua lógica toddleana sem lógica nenhuma, que se ele for no chão como o caçula ele no longer será um baby loser. Esse conflito toddleano de identidade (sou bebê ou sou criança) é muito conveniente para mim, que não quero carregar ninguém mesmo.

Entretanto, no entanto, todavia, ele quer ir no chão, porém, sob condições específicas e restritíssimas, quais sejam, ele tem de ir na frente do irmão. Porque tem toda uma s-e-q-u-ê-n-c-i-a, entende? Temos de descer a escada em fila, igual bonecos playmobil. Como ele é super metido, de um jeito que só os toddlers conseguem ser e têm o direito de ser, no seu profundo, irritante e maravilhoso egocentrismo, ele vai primeiro puxando o carro.

E é ele também quem decide quem vem logo atrás, porque não é uma sequência aleatória, não, meus filhos. Não há espaço para a espontaneidade aqui. Com toddlers o buraco é sempre mais embaixo, mais apertado e mais escuro. Tudo vira drama. Enfim, invariavelmente, eu venho logo atrás dele. Veja só, sou a segunda. Yay. Quanta honra. Pausa para um certo sarcasmo here.

Tente não respeitar essa ordem? You wouldn’t dare. Jamais desceríamos a escada. A visão é de mim parada no topo da escada, segurando aquela cesta estúpida na mão, feito uma otária. É uma realidade kafkiana de fato, meus amigos. Eu vejo o pé da escada, eu sei que são poucos degraus até minha final destination, mas eu não consigo chegar lá. Eu nunca vou chegar lá. Nunca uma escada parece tão impossível de descer como nesses momentos. Então sim, se ele quer ir na frente, I don’t give a fuck. Eu só quero chegar lá embaixo.

O problema é que o que eu escolhi pra ir no chão, lá atrás, também impõe suas condições estapafúrdias. Sim, porque esta é outra coisa para você aprender sobre toddlers. Toddlers are not reasonable creatures para descer a escada: eu não posso segurar a mão dele… porque ele tem três cavalos nas mãos. Isso mesmo, minha gente, estamos na fase CAVALOS por aqui. Não carros, não bichos de pelúcia, não trenzinho. C-A-V-A-L-O-S.

Os cavalos não cabem todos em uma só mão, porque, ÓBVIO, a mão é muito pequena para tanto cavalo. E nem pensar em dar pra mamãe um deles, o que faria nossa descida segura e possível. Não, não se pode ralar nos cavalos, não se tira nenhum cavalo dele. No máximo, estou autorizada a beijar os cavalos e colocá-los para dormir. Com ele.

“Do you love my horses?”, ele me pergunta todo dia, várias vezes ao dia, naquela língua embolada dele de toddler. No, creature, I hate your damn horses, mas, claro, eu minto que amo de paixão os cavalos do moleque, porque traumatizar não pode e não quero ter de usar as suadas economias do college em uma futura terapia para ele. Está rindo de mim? Você acha grotesco beijar cavalo? Já entendi. Você não é mãe/pai de toddler.

Então eu me vejo nesse impasse surreal em que um só desce a escada se for na frente de todo mundo e o outro só desce segurando 3 cavalos idiotas que não encaixam na mão dele. Mas aí é que eu dou o pulo do gato. Como o moleque dos cavalos é o mais novo, I don’t give a damn for what he wants, no respect here for his rights and needs.

Porque segundo filho só se fode, percebeu? E assim é. E assim sempre será. Aqui em casa não é diferente, colegas. He needs to suck it up. Então eu tomo os cavalos dele, gentilmente, claro, como só uma passive-agressive mom consegue ser, jogo-os rapidinho dentro da cesta, seguro sua mão, na marra, e assim vamos descendo a escada, embaixo de berros desesperados, do jeito mais rough que só meninos conhecem e gostam, até chegar lá embaixo. Fi-nal-men-te.

Dou os cavalos de volta pro moleque mais novo. Mais que 2 minutos de separação pode causar trauma. Já falei, nada de causar traumas por aqui porque psicólogo custa caro. O que estava mal-humorado no começo dessa saga ridícula está agora com o humor pra cima dando pinotes em volta de mim. Wonderful.

Só que o que não estava mal-humorado agora está soltando fogo pelas ventas, rolando pelo chão do foyer e repetindo o tempo todo “I don’t want to go”, totalmente fora de contexto, eu não faço ideia do que o moleque quer dizer com isso, mas, quem se importa? Os cavalos tão amados? Ele não quer mais, jogou todos do outro lado da sala. De raiva, porque eu cometi o pecado mortal de segurar na mão dele para descer a escada. E ainda tive a pachorra de tomar dele os cavalos adorados.

Mais surreal ainda é a reação do mais-mal-humorado-agora-não-mais-tão-mal-humorado ao ver o irmão se estrebuchando no chão. Ele manda o irmão se levantar e fala que ele está de castigo. Eu lembro que aqui só mamãe e papai podem colocar de castigo. Ele, claro, acha isso uma afronta. Como assim, ele não é o The Boss? Sai correndo e vai chorar na outra sala. Longe de mim e do irmão. E dos cavalos.

Cinco minutos depois, eles estão brincando felizes da vida. Juntos, quem diria. Quanto a mim, estou destruída. Porque negociar com toddlers é exaustivo.

The end.

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  • Sirlene June 18, 2015 at 5:57 AM

    Hahahaha morrendo de rir aqui com o seu drama Eliane! Hahahaha

    • Feisty Eli June 18, 2015 at 9:51 AM

      Tenho certeza de que você sabe como é ser mãe de toddler. Né mole, não. hehehehe

  • Vívian Rodrigues June 18, 2015 at 8:30 PM

    hauhauhauah rindo muito mesmo… Que meninos tão calminhos vc tem 😉
    Não é fácil Eli, não é fácil, mas calma, sempre piora, como o Davi é assim.
    Saudades das suas aventuras em série.
    Bj grande

    • Feisty Eli August 8, 2015 at 9:43 PM

      Vivi, que saudade! Como voces estao? Beijo, linda.

  • Pamela July 24, 2015 at 10:44 PM

    Maravilha de texto, me diverti! Parabéns 🙂

    • Feisty Eli August 8, 2015 at 9:27 PM

      Obrigada! 🙂

  • Eloise August 11, 2015 at 5:04 PM

    Sabe o que é o pior? Que logo, logo você vai sentir falta e saudades até das birras, apesar de custar os nervos, é uma fase linda, cheia de inocência. Uma delícia de texto como sempre. Beijos